Meus parabéns pra Cora Coralina

Sempre gostei de coisas simples, de receber com café, bolo, pão com manteiga, bolinho de chuva, paçoca de amendoim ou uma colherada ou um pedaço de compota caseira com queijo. E se não é café, é limonada de limão-galego ou cravo, ou laranjada com laranjas do pomar, ou refresco de maracujá recém-colhido ou um chazinho de hortelã preparado com folhinhas colhidas na hora.

Quando menina, nas minhas andanças pelas estradas que se espalham pela zona rural de São Luiz do Paraitinga, eu tomava café na casa de todos que oferecessem um cafezinho de coador feito com água da chaleira que passava o dia todo “quentando” na chapa do fogão à lenha e acabava comendo um doce, um biscoito, um pouco de requeijão fresco, uma broa ou umas colheradas de paçoca.

Como não poderia deixar de ser, sempre adorei receitas diferentes de bolos e doces caseiros e tradicionais e até hoje procuro não deixar passar nenhuma chance de aproveitar as dicas e os truques de cozinheiras e doceiras que, por sua vez, aprenderam “olhando” as mães, tias e avós.

Como esse aprender envolve o “fazer junto”, sempre dei um jeitinho de entrar no grupo das mulheres que, no tempo do milho verde, preparavam pamonha, curau e bolo de milho; na época da laranja-amarga, passavam horas e horas descascando laranjas com uma delicadeza impressionante e uma faquinha muito afiada, pra retirar a quantidade exata da parte colorida da casca, que faz amargar o doce, mas sem ferir a parte clara, que não pode ficar marcada, facetada, e depois “cuidavam” das laranjas que ficavam de molho por uma semana, pra “tirar o amargor”, e faziam a calda e cozinhavam as laranjas e finalizavam o doce; que gastavam a tarde inteira fazendo fitas perfeitas e intermináveis de mamão, ou retirando as sementes das goiabas pra fazer goiabada ou trançando réstias de alho e cebola, sem falar nos dias de preparar linguiça e carne na lata. Acho lindo ter tido a oportunidade de viver tudo isso e de, desde muito cedo, ter dado um valor incrível a esses momentos todos.

Por tudo isso fiquei emocionada quando, em 2012, recebi o convite pra participar do evento Cozinhando com Palavras, na Bienal do Livro. D. Vicência Brêtas Tahan, filha mais nova da poetisa e doceira Cora Coralina, e eu conversaríamos por umas duas horas com leitores. E falaria sobre a vida da mãe em Goiás, mesclando poesia e doces, que eram o seu ganha-pão, e recitando um poema que escolheríamos juntas; e eu prepararia uma receita relacionada ao nosso bate-papo e falaria sobre esse transformar frutas e açúcar em doce e farinha, leite, ovo, manteiga e açúcar em bolo. Quer dizer: tudo de bom!

Conversei muito com D. Vicência e descobri que Cora adorava empadão goiano, a torta de massa fininha recheada com uma mistura de frango, pedacinhos de carne de porco ou linguiça, cubinhos de queijo, milho e guariroba (um tipo de palmito mais amargo, típico do Centro-Oeste do Brasil); doce de laranja da terra, ambrosia de doce de leite e bolo de milho ou de fubá.

Contei a ela que amava milho e adoraria preparar um bolo de fubá bem de roça, cozido na panela, pra servir com café aos nossos convidados, e ela achou o máximo. Na hora de escolher o poema ficamos entre “Oração ao milho”, que é linda, e “Antiguidades”, que acabou sendo escolhido por falar de bolo, e de um bolo cozido na panela.

Por uma dessas coincidências da vida, o encontro seria no dia em que Cora, que nasceu em 1889, completaria 121 anos de idade. De casa, levei bolo de fubá com goiabada pros 70 convidados e uns potes de ambrosia, já D. Vicência, muitas histórias pra contar e “Antiguidades” na ponta da língua.

Iniciei minha fala contando sobre o cozinhar “simples”, o receber com carinho e preparei uma receita do bolo pra quem quisesse aprender. D. Vicência dividiu com a gente que a mãe começou a escrever já com bastante idade, que era doceira de mão-cheia, que suas compotas eram divinas e, com elas, sustentava a família.

Em seguida, entregamos um pratinho com uma fatia de bolo, uma tigelinha com ambrosia, uma xícara de café a cada convidado e cantamos parabéns pra nossa Cora. Todos comentaram que era muito chique comemorar um aniversário com bolo de fubá. Pra terminar, com lágrimas nos olhos, D. Vicência declamou o lindo texto. Acabou-se o que era doce, mas foi lindo sentir a poesia, os doces e o bolo mais simples do mundo passando uma tarde deliciosa juntos.

ANTIGUIDADES – CORA CORALINA

Quando eu era menina
bem pequena,
em nossa casa,
certos dias da semana
se fazia um bolo,
assado na panela
com um testo de borralho em cima.
Era um bolo econômico,
como tudo, antigamente.
Pesado, grosso, pastoso.
(Por sinal que muito ruim.)
Eu era menina em crescimento.
Gulosa,
abria os olhos para aquele bolo
que me parecia tão bom
e tão gostoso.
A gente mandona lá de casa
cortava aquele bolo
com importância.
Com atenção. Seriamente.
Eu presente.
Com vontade de comer o bolo todo.
Era só olhos e boca e desejo
daquele bolo inteiro.
Minha irmã mais velha
governava. Regrava.
Me dava uma fatia,
tão fina, tão delgada…
E fatias iguais às outras manas.
E que ninguém pedisse mais !
E o bolo inteiro,
quase intangível,
se guardava bem guardado,
com cuidado,
num armário, alto, fechado,
impossível.
Era aquilo, uma coisa de respeito.
Não pra ser comido
assim, sem mais nem menos.
Destinava-se às visitas da noite,
certas ou imprevistas.
Detestadas da meninada.
Criança, no meu tempo de criança,
não valia mesmo nada.
A gente grande da casa
usava e abusava
de pretensos direitos
de educação.
Por dá-cá-aquela-palha,
ralhos e beliscão.
Palmatória e chineladas
não faltavam.
Quando não,
sentada no canto de castigo
fazendo trancinhas,
amarrando abrolhos.
“Tomando propósito”.
Expressão muito corrente e pedagógica.
Aquela gente antiga,
passadiça, era assim:
severa, ralhadeira.
Não poupava as crianças.
Mas, as visitas… –
Valha-me Deus!… As visitas…
Como eram queridas,
recebidas, estimadas,
conceituadas, agradadas!
Era gente superenjoada.
Solene, empertigada.
De velhas conversas
que davam sono.
Antiguidades…
Até os nomes, que não se percam:
D. Aninha com Seu Quinquim.
D. Milécia, sempre às voltas
com receitas de bolo, assuntos
de licores e pudins.
D. Benedita com sua filha Lili.
D. Benedita – alta, magrinha.
Lili – baixota, gordinha.
Puxava de uma perna e fazia crochê.
E, diziam dela línguas viperinas:
“– Lili é a bengala de D. Benedita”.
Mestre Quina, D. Luisalves,
Saninha de Bili, Sá Mônica.
Gente do Cônego, Padre Pio.
D. Joaquina Amâncio…
Dessa então me lembro bem.
Era amiga do peito de minha bisavó.
Aparecia em nossa casa
quando o relógio dos frades
tinha já marcado 9 horas
e a corneta do quartel, tocado silêncio.
E só se ia quando o galo cantava.
O pessoal da casa,
como era de bom-tom,
se revezava fazendo sala.
Rendidos de sono, davam o fora.
No fim, só ficava mesmo, firme,
minha bisavó.
D. Joaquina era uma velha
grossa, rombuda, aparatosa.
Esquisita.
Demorona.
Cega de um olho.
Gostava de flores e de vestido novo.
Tinha seu dinheiro de contado.
Grossas contas de ouro
no pescoço.
Anéis pelos dedos.
Bichas nas orelhas.
Pitava na palha.
Cheirava rapé.
E era de Paracatu.
O sobrinho que a acompanhava,
enquanto a tia conversava
contando “causos” infindáveis,
dormia estirado
no banco da varanda.
Eu fazia força de ficar acordada
esperando a descida certa
do bolo
encerrado no armário alto.
E quando este aparecia,
vencida pelo sono já dormia.
E sonhava com o imenso armário
cheio de grandes bolos
ao meu alcance.
De manhã cedo
quando acordava,
estremunhada,
com a boca amarga,
– ai de mim –
via com tristeza,
sobre a mesa:
xícaras sujas de café,
pontas queimadas de cigarro.
O prato vazio, onde esteve o bolo,
e um cheiro enjoado de rapé.

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Helozices, Histórias

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