Jaqueiras cheirosas

Ana Bacellar

Quando eu tinha oito anos, fui conhecer a fazenda da família no interior da Paraíba, em Araruna, perto de Campina Grande.

A viagem foi divertida, meus pais, meu avô Areobaldo e acho que um tio, todos num jipe. Minha irmã, uma prima de lá e eu nos banquinhos da traseira com duas galinhas.

Chegando à Fazenda Calabouço, logo vi o meu bisavô arreando um cavalo em frente da casa e, na varanda, uma bacia cheia dos cajus que logo viraram cajuada e uma pilha de jacas. Olhei intrigada pras jacas e o meu avô disse solenemente “minha neta, estamos na terra das jaqueiras cheirosas”.

De fato, a casa era rodeada por jaqueiras perfumadíssimas e carregadas da fruta imensa e enrugada que ficava pendurada num cipó grosso preso ao tronco.

Aquelas jacas eram moles e doces, quase até demais. Logo fui pegando um bago, colocando na boca, sentindo o puxa-puxa delicioso, cuspindo o caroço e comendo mais um, e mais um, e só mais um e acabei devorando tantos que mal almocei. Não conseguia mesmo dizer “chega” pra uma coisa tão boa, fui fisgada pela jaca pra sempre e nunca me esqueci daquele dia.

Naquela hora, aprendi que pra soltar os bagos sem ficar com a mão grudenta, bastava untar a mão com um pouco de óleo e também experimentei jaca-manteiga e jaca-dura, que achei bem sem graça. Gostei mesmo da jaca mole, suculenta, saborosa e perfumada.

Desde aquele aquele tempo, tento explicar aos desconfiados que a jaca é tudo de bom e que só experimentando se pode entender, mas a tarefa é dura. A rejeição é impressionante, e totalmente sem pé nem cabeça. As pessoas dizem que detestam ela sem jamais ter comido um pedacinho sequer.

O maior problema de adorar jaca? Como a freguesia não é grande e as frutas costumam ser imensas (há jacas de 2, 5, 10, 20, 30 quilos, e há quem diga que já viu até de 50), é complicado – e gulodice – comprar ou colher e abrir uma jaca pra uma pessoa só (meu marido come meia dúzia de bagos, minhas filhas dizem que o cheiro é horrível e que “odeiam”, mas nunca experimentaram).

Quando como, sempre penso na tia Wanda, irmã da minha avó Betty, que amava jaca. Quando vejo a fruta na feira, peço um baguinho pra matar um tiquinho da vontade e compro um pedaço, deixo na geladeira e vou comendo aos poucos a preciosidade.

A festa acontece na praia, em Toque-Toque Pequeno, São Sebastião, com as jaqueiras altas e frondosas, com folhas lindas e que, com o calor tropical, crescem felizes e dão jacas aos montes (a sombra da árvore é tentadora, mas não dá pra esticar uma rede, pegar um livro e arriscar-se a tomar uma jacada na cabeça).

Pé de jaqueira é o que não falta na minha casa de praia. Foto: Ana Bacellar

No verão, são tantas amadurecendo que muitas despencam e se espatifam no chão, e ninguém se importa, sobra jaca. Na porta de casa, há uma jaqueira enorme que está sempre carregada, e eu me esbaldo, escolho as menores e bem maduras, macias, mas ainda firmes, sem estar se desmanchando, abro, solto os bagos, coloco tudo num pote na geladeira e passo o dia beliscando e tomando suco de jaca (batida no liquidificador com gelo, água ou leite), faço sorvete, picolé ou coloco uns bagos sem caroço no freezer e degusto como se fosse um sorvete de pura fruta (também aprendi o truque com a minha avó Betty).

A casca grossa vai pro lixo, mas os caroços não devem ser desperdiçados. Assim como os caiçaras, eu cozinho os caroços numa panela com bastante água e sal por uns 40 minutos, até que estejam bem macios (eles se desmancham como feijão quando a gente esmaga com os dedos). Então escorro, esfrego cada caroço com a ponta dos dedos pra soltar a pele, que se desprende com facilidade, e uso como pinhão ou batata.

Dá pra fazer purê, saltear na manteiga, usar na massa de pão (como se fosse mandioca ou batata), fritar (como se fosse batatinha cozida), colocar na farofa (um caiçara me disse que eles fazem farofa com ovas de peixe e caroço de jaca) e, como na Índia, fazer ensopados saborosíssimos com curry, leite de coco e pimenta.

Tem gente que usa jaca verde pra refogar e fritar, mas eu prefiro jaca madura, que vira moqueca, geleia, doce em calda, em pasta ou até cristalizado (lindo é delicioso) e chutney. Falando em chutney, o chutney de jaca comum no sul da Índia leva a fruta ainda verdolenga, mas escolhi uma receita semelhante a um chutney de jaca madura com a acidez do limão, a doçura do melaço de cana e o perfume da canela e do cravo que comi num restaurante indiano de Liverpool.

Experimentei o chutney de jaca em um restaurante na Inglaterra, e não larguei mais. Foto: Ana Bacellar

Quer saber mais? A jaqueira se chama é Artocarpus integrifolia, é nativa da Índia, mas há quem diga que também aparecia na Oceania. Em malaio, é chakka. Veio parar no Brasil com os portugueses e foi se espalhando de tal forma que hoje aparece em tudo quanto é lugar quente do litoral e do interior. A jaca gostou tanto desta terra que dá a impressão de ser daqui.

A fruta é rica em cálcio, fósforo, cobre, ferro e iodo, além de fibras, antioxidantes, carboidratos, vitaminas A, C e do complexo B.

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