Jabuticada é tudo de bom

Quando fiz sete anos, ganhei da minha mãe o livro “Reinações de Narizinho” e li sozinha, tenho até hoje a edição de 1968. Fiquei apaixonada pelo sítio do Pica-pau Amarelo, pela Narizinho, pelo Pedrinho, pela Dona Benta, Tia Anastácia, Emília, pelo Visconde de Sabugosa e pelo Rabicó, andava com o livro pra cima e pra baixo e lia e relia tanto que acabei decorando vários trechos. O capítulo das jabuticabas era um dos preferidos, achava as descrições de como tudo acontecia tão perfeitas que conseguia imaginar que estava colhendo e chupando jabuticabas… Acho que até sentia o gosto!

Na história, quando as jabuticabas chegavam no ponto, a Narizinho subia na árvore, “escolhia as mais bonitas, punha-as entre os dentes e tloc! E depois do tloc, uma engulidinha do caldo e pluf! – caroço fora. E tloc, pluf – tloc, pluf, lá passava o dia inteiro na árvore”, então chegava o porquinho Rabicó, que abocanhava toda frutinha que encontrava pelo chão, e naturalmente surgia a música da jabuticabeira “tloque! pluf! nhoque! – tloque! pluf! nhoque!”.

Lia o trecho do livro e saía pro quintal da casa em que a gente morava torcendo pra que as jabuticabas estivessem madurinhas. Gostava tanto da jabuticabeira que, mesmo fora do tempo das frutinhas, subia na árvore com o meu “Reinações” e passava horas lá em cima lendo ou apenas pensando na vida.

Capa do meu livro querido.

Por falar em subir, acho que poucas árvores são tão perfeitas pra isso como a jabuticabeira, o tronco vai se dividindo e subdividindo de um jeito tão incrível e lógico que apoiar os pés com segurança é fácil demais. Tão tranquilo que, quando a gente começa a subir, de repente já está lá no alto, sempre querendo pegar as frutas do galho logo acima, as maiores, e passa horas chupando jabuticabas e cuspindo o caroço (que em excesso pode fazer mal e pode dar dor de barriga), também não se consegue parar, sempre pensando “só mais uma”, mas vem mais uma e depois mais uma, poucas coisas são tão viciantes.

Cresci rodeada por jabuticabeiras, hoje tenho uma alameda de vários tipos e plantadas pelo meu marido na frente da casa da fazenda e, em São Paulo, tenho uma lindíssima no quintal.

Drummond, cheio de razão, disse que jabuticaba chupa-se no pé e é verdade. Até dá pra colher e guardar por um ou no máximo dois dias na geladeira, ou comprar e chupar em casa quando não se tem uma jabuticabeira por perto, mas no pé tudo é diferente. Não se trata só de chupar a fruta fresquíssima e que explode na boca de um jeito único, mas sim de passar um momento maravilhoso à sombra de uma árvore que é uma verdadeira rainha.

A jabuticabeira, ou Myrciaria cauliflora, é uma árvore linda, frondosa, muito brasileira, nativa da Mata Atlântica do sudeste. Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo têm aos montes, mas que se espalhou pelo Brasil inteiro e até por outros cantos da América do Sul. É de médio pra grande porte, dependendo da espécie, e que faz parte da família das mirtáceas, a mesma da goiaba, do araça e da pitanga, a maioria delas com aqueles troncos que têm jeito camuflado, mesclando camadas de cascas claras e escuras. Só que a jabuticabeira, assim como a pitangueira e ao contrário da goiabeira e do araçazeiro, tem folhas miúdas, finas, brilhantes e de um verde forte e intenso que formam a copa frondosa.

É lindo ver meu pé de jabuticaba cheio.

São muitas as variedades de jabuticaba, mas as mais comuns são a “Sabará”, nativa de Sabará, uma cidade mineira que fica pertinho de Belo Horizonte, que dá frutos pequenos, doces e abundantes, a “paulista”, que produz jabuticabas um pouco mariores e também muito doces, a “ponhema” e a “olho de boi”, mais graúdas, suculentas e doces, a “rajada” que é esverdeada com risquinhos marrons, a “branca”, que na realidade é verde, as duas gostosas e interessantes por não serem pretinhas.

Jabuticabeira é árvore que se planta pra colher em uma década e sempre pensando que serão os filhos e os netos que verão a árvore realmente grande e frondosa, pois ela leva muito tempo pra crescer e pra produzir. Só que quando ela começa a dar, não para mais, segue frutificando aos montes por anos a fio, há árvores centenárias que produzem boas quantidades. As jabuticabeiras da Fazenda Pinhal, em São Carlos, são assim, espetaculares, acho que as mais lindas que já vi, formam um pomar impressionante.

Muito antes dos portugueses chegarem nessas terras, os índios já saboreavam essas frutinhas tão doces, pretas e redondas, e por acharem que o formato lembrava o de um jabuti, elas viraram jabuticabas. De cara, os lusos se apaixonaram pela fruta docinha e abundante que começava com uma florada de mini-flores brancas coladas ao tronco com um perfume doce e delicioso, que depois se desfaz como chuva de mini-pétalas, aí se transformam em bolinhas verdes que também ficam agarradinhas aos troncos e, depois de uns 20 dias, pretejam e ficam preenchidas por uma polpa doce e delicada.

Fernão Cardim, um padre jesuíta que viajou pela costa brasileira no século XVI e escreveu sobre o que encontrou no Brasil, falou da jabuticaba, dizendo que era uma “fructa rara, e acha-se somente pelo sertão a dentro da capitania de São Vicente”. Saint-Hilaire, naturalista francês que também se encantou com o Brasil, escreveu no seu “Viagem à província de São Paulo” que “o terreno era vasto, e vi aléias de laranjeiras, muitos pessegueiros, pitangueiros (Eugenia michelli, Lam) pés de abacaxi e principalmente uma prodigiosa quantidade de jabuticabeiras (Myrtus cauliflora, Mart). Quando me achava em São Paulo os frutos dessa árvore estavam em plena maturidade e eram vendidos nas ruas da cidade. As jabuticabeiras levam certamente vantagem sobre todas as frutas indígenas do Brasil. São doces sem serem enjoativas, agradavelmente mucilaginosas e extremamente refrescantes.”

Na verdade, é difícil encontrar quem resista a estas bolinhas pretas que explodem na boca. Quase todo mundo que experimenta se encanta, os passarinhos (os periquitos e os sabiás que vivem pelo meu quintal adoram) e até dos cachorros (o Cacau, nosso vira-lata muito arteiro e divertido, costuma subir na primeira forquilha pra abocanhar jabuticabas direto do tronco e não perde as chances de comer as polpas com sementes que a gente cospe).

Como a casca escura, que lembra a de uma uva muito preta, só que mais grossa, é riquíssima em taninos, tudo o que se faz com ela fica com uma cor roxa deslumbrante e tem um adstringente que dá complexidade às receitas.

De setembro a novembro, quando jabuticaba não falta e colho bacias cheias delas, aproveito pra matar a vontade de cozinhar com ela e, também, abasteço a despensa por um tempo de licor e geleia, faço sorvetes, bolos e molhos pra carnes e saladas.

Dá para inventar tanta coisa com essa frutinha pequenininha.

Se tiver uma jabuticabeira em casa e quiser uma produção abundante e mais frequente, mais de uma vez por ano, regue com vontade ou até deixe uma torneira gotejando ao lado do pé, pois a árvore adora água (funciona também furar uma bacia, apoiar a bacia na terra ao lado da jabuticabeira, encher a bacia de água e deixar a água escorrer aos poucos).

Essas frutinhas têm vitaminas B e C aos montes, além de cálcio e ferro, mas também fazem bem no combate à asma e às dores de estômago. Além de chupar, vale também separar umas 8 cascas, aquecer com, mais ou menos, 1 e ¼ de xícara de chá de água, ferver por uns 5min, desligar o fogo, tampar a panela e deixar descansar por uns 5min, coar e tomar.

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Helozices, Histórias

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4 Comments

  1. 1

    Oi Helô continuo sua fã, já fiz várias receitas principalmente as que não tem lactose,pois meu marido é alérgico.Gostariade saber se vce tem uma receita de esfiha sem lactose obrigada bjos boa sorte

  2. 3

    Como a internet tem surpresas! Estava procurando receitas de licor de jabuticaba e me deparei com este blog apaixonante! Sou uma feliz nova moradora de uma cidade maravilhosa cheia de história chamada Vassouras. Fui abençoada com uma casinha daquelas de vó, com um grande quintal e com uma floresta de jabuticabeiras como vizinha. Estou providenciando minha floresta também. Estou com mais de dois quilos de jabuticaba na minha geladeira e não quero jogar no lixo! Vou fazer o licor e tentar fazer geléia também! Um abraço e obrigada pelo blog!

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