Era uma vez uma romãnzeira…

Era uma vez uma romãzeira que cresceu e cresceu, deu frutos aos montes e abasteceu a minha cozinha com sementes suculentas, até que, num dia de verão, depois de ter deixado que seus frutos tentadores fossem colhido e lindamente fotografados, quase como numa despedida, ficou tão aterrorizada com os raios e trovões de uma tempestade apavorante que caiu e morreu.

Incrível, não é? Mas foi exatamente isso que aconteceu na minha casa. A romãzeira nasceu no jardim ao lado da sala de jantar e ficou tão grande que passei a colher os frutos lá do alto apenas esticando o braço pela janela do meu quarto. Todo ano, eu colhia elas bem vermelhas e maduras, algumas até começando a rachar, soltava as sementes rosadas e brilhantes como pedras preciosas e usava para fazer sucos, incrementar saladas e preparar xarope.

Numa manhã linda de dezembro, fiquei radiante quando enchi uma gamela com romãs colhidas bem cedo e mais ainda quando o Romulo Fialdini – “meu fotógrafo querido” – chegou em casa pra fotografar vários pratos, ficou encantado com elas e tirou uma foto. Na mesma noite, caiu uma tempestade cinematográfica, com raios, trovões e um vento tão forte que a romãzeira amanheceu no chão, com as raízes pra fora e terra pra tudo quanto é lado. Liguei chorando pro Romulo, que me mandou a foto pra que eu nunca me esquecesse das romãs. Com as frutas colhidas, fiz um xarope maravilhoso, que usei gota a gota pra não acabar logo.

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Pensando bem, tive romãzeiras nas três casas em que morei depois de casada. Sempre ouvi dizer que elas davam sorte, mas as plantei porque gosto de suas delicadas flores alaranjadas e das frutas lindas e saborosas.

Na verdade, eu me apaixonei pra valer pelas tais pedrinhas preciosas numa viagem ao Egito, principalmente quando visitei Alexandria e comi romãs ultradoces pela rua. Foi nessa época que aprendi a abrir uma romã rolando a fruta inteira sobre uma superfície lisa e apertando bem, depois abrindo e separando as sementes das partes esbranquiçadas, que fazem amargar qualquer preparação (também funciona cortar ela ao meio, como se fosse uma laranja, bater com uma colher de pau na casca pra soltar as sementes, depois virar a casca pra soltar o que não sair com facilidade). Também aprendi que o melhor jeito pra extrair o suco ainda é o tradicional: colocar as sementes no centro de um pano limpo, juntar as pontas pra fazer uma trouxa e espremer com força até o suco de cor estonteante terminar (como o pano fica rosado, guardo só pra essa função).

Os refrescos que tomei no Egito eram deliciosos e a salada fatoush da minha querida Leila Kuczynski, do Arábia, comprovou por A + B que as sementes de romã dão, não apenas beleza, mas também textura e sabor ao prato. E foi com um livro antigo sobre a cozinha turca, que comprei de um bouquiniste em Paris, acho que em 1995, que aprendi esses truques e também que vale a pena preparar em casa o xarope que serve de base pra molhos e pastas.

Pra beber o suco, basta levar pra gelar, nem adoçar precisa, de tão doce que é. Pro xarope, coloco bastante líquido da fruta numa panelinha e deixo reduzir até encorpar e cobrir o dorso de uma colher, como se fosse groselha, então junto um pouco de açúcar e de suco de limão, pra conservar, deixo ferver por uns minutos e guardo na geladeira. Também já usei cascas de romã pra tingir tecidos de algodão, que ficam amarelíssimos.

Pelo que se sabe, a romãzeira, Punica granatum, é natural da região da Ásia Menor e Irã e é há muito considerada uma árvore sagrada, ligada ao amor e à fecundidade, tanto que os egípcios a usavam em seus cultos, os gregos associavam a fruta à deusa Afrodite e os romanos continuaram na mesma linha. Na Bíblia, a romã também aparece, e os judeus a usam em rituais de passagem de ano, pois acreditam que ela ajuda a fazer o ano que chega ser melhor do que o que está terminando. E muita gente ainda jura que três sementinhas na carteira não deixam faltar dinheiro.

Se eu já tinha bons motivos pra gostar das romãs, ganhei mais um quando li “Sombras da Romãzeira”, do Tariq Ali, um romance sensacional que se passa em Granada. Vale a pena ler!

A fruta tem várias propriedades medicinais, ajuda a controlar o colesterol e a pressão arterial, alivia sintomas da artrite, combate a diarreia e ainda auxilia no trabalho de parto.

Quais as melhores romãs do mundo? Pergunta difícil. Além das brasileiras, que são muito boas, eu já comi espanholas, francesas provençais e egípcias excelentes, mas sei que há italianas, gregas, turcas, sírias, libanesas, além das iranianas, iraquianas e afegãs (estas consideradas as melhores por muita gente). Enfim, boas romãs não faltam!

A foto das romãs de hoje são da Ana, minha filha e fotógrafa querida demais.

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