Belém é o máximo – Parte 3

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O mundo do Ver-o-Peso
No outro dia, a gente foi cedo como o Paulo pro Ver-o-Peso e feliz demais com a chance de ir a um mercado tão cheio de vida na companhia de alguém que conhece tudo do lugar. O Veropa, como eles falam, nasceu no XVII como o lugar oficial pra verificar o peso dos gêneros alimentícios pra calcular os impostos. Um tempo depois, ele acabou se transformando em mercado e também na porta de entrada dos produtos vindos das ilhas e da floresta.

Dizem que hoje ele é a maior feira aberta da América Latina e das grandes feiras do mundo, com muitas barracas, uma quantidade enorme de gente que trabalha por lá ou vive em Belém ou nas redondezas e vai comprar, ou está lá pra conhecer e compra uma coisa ou outra. É um mundo, e um mundo muito próprio, daqueles lugares perfeitos pra quem ama mercados, comida e tudo o que tem a ver com o assunto.

Vista para o mercado Ver-o-peso

Antes de passear pelos meandros todos do mercado, é importante entender que o jeito de comprar também é muito próprio, pois as medidas bem características são usadas em todas as negociações. Camarão seco ou fresco, farinha, castanhas são negociados por litro, medidos numa caneca alta que teoricamente tem capacidade pra receber 1 litro de líquido, e nada de quilo, pois balança é raridade. Açaí é por paneiro, tucupi vem em garrafas pet, das menores à grandes, pimentas são por canecas menores, os cheiros vêm em maços, que variam bastante de tamanho e por aí vai…

Entrando no mercado a partir das Docas, a Ana e eu pedimos pra comer castanha fresca e… Plim…, o Paulo logo achou uma moça que descascava na hora umas castanhas fresquíssimas, ainda escorrendo leite. A gente ficou um tempo só olhando a moça abrir o ouriço e descascar cada castanha com um facão, tudo com uma habilidade incrível. Colocar aquela castanha na boca foi tudo experiência e tanto, pois essa muito fresca já é bem mais suculenta que a maioria das vendidas como frescas e nadinha de nadinha a ver com as secas que todo mundo conhece.

O primeiro setor de barracas, cheio de roupas e traquitanas e o menos emocionante, mas mesmo assim eu achei umas panelas, travessas e fôrmas de alumínio bem legais.

Comilança
Em seguida, começa o mercado pra valer, com as tendas de cobertura clara e arrumadas pelos próprios vendedores, há muitas barracas de comida que fazem sucesso com os belenenses, todas com balcão e uns bancos altos, e as mais com jeito de mini restaurantes, que já tem umas mesinhas e cadeiras e agradam turistas. Há várias barracas que servem cuias com mingau de tapioca e tapioquinhas pra todos que madrugam ou começam muito cedo nos mercados do açaí e do peixe ou trabalham montando as barracas dos demais produtos, ou vão ao mercado comprar alguma coisa muito cedo com todo o frescor da manhã.

Nas outras barracas, a partir de umas 8h ou 9h da manhã, as chamadas boieiras preparam simplesmente a boia, ou refeição tipo PF e começam a servir a quem trabalha ou passai. Essa comilança fica movimentada entre umas 10h30 e 13h e, apesar de muita gente servir arroz, feijão, macarrão, charque e maniçoba, o prato que mais faz sucesso, não falta nunca é a cara do Pará, é o peixe frito com açaí.

Peixes fritos bem fresquinhos!
Foto: Ana Bacellar

É muito peixe frito na hora, ultra crocante e dourado, e tanto da pescada dourada, que é a opção mais comum, aos peixes mais regionais com bacias cheias de açaí grosso e roxíssimo despolpado no mesmo segundo e, é claro, muita farinha e pimenta-de-cheiro ao lado. Não dá pra negar que, dependendo da barraca, bate uma duvidazinha sobre a limpeza do lugar, mas é só respirar, pensar na experiência tão impressionantemente sensacional, escolher uma das boieiras nota 10, como a Lucia, a Oswaldina, a Eliana, a Glauce, a Ivonete, a Tieta e muitas outras, todas com clientes ultra fiéis e que juram que a sua escolhida é a melhor.

Castanhas pra dar e vender
Logo adiante, mais um canto do paraíso, ao menos pra mim. De cara, começam as bancas antigas de madeira antiga, charmosas demais, e que vendem castanhas aos montes, das moídas e bem quebradas, às pequenas, médias, grandes e enormes, e das secas, das frescas e das fresquíssimas. Há muitas barracas especializadas em castanhas, mas muita gente gosta da do Nonato. Eu me diverti, experimentei muitas, fiquei observando os vendedores com facões gigantes abrirem os ouriços. Quanto aos ouriços lindos de morrer e ainda úteis, pois quando se tira uma tampa cada ouriço ainda se transforma numa tigelinha rústica, é bem interessante saber que cada um contém de 15 a 20 castanhas com a casca dura e grossa organizadinhas e encaixadas como um quebra cabeça impossível de ser remontado depois de desmontado. Tentei umas vezes, mas sempre sobravam umas 2 ou 3.

Castanha no ouriço
Foto: Ana Bacellar

Não tive tempo de ir mais longe de Belém pra ver muitas castanheiras, mas vi uma linda no Emilio Goeldi e também mais umas no caminho de Bragança. A árvore é gigantesca, reina sobre a floresta, e dá muitos ouriços que, quando amadurecem, o chão fica coberto de ouriços. Aí os catadores chegam, recolhem, abrem os ouriços com uma destreza impressionante e depois abrem cada castanha com tanta habilidade que é difícil até de acreditar no que se vê. comunidades de castanheiros coletam os ouriços, abrem e retiram castanhas.

Encontrei castanhas de tudo quanto é jeito. Um paraíso!
Foto: Ana Bacellar

Hoje, tecnicamente, as castanhas que antes eram do-Pará passaram a ser chamadas de do-Brasil, pois outros lugares da Amazônia também tem as castanheiras como árvore nativa, mas isso não importa tanto, o que vale é que , por aqui, quase todo mundo conhece a tal castanha, que entra em receitas salgadas e doces, é deliciosa e nutritiva, por aqui é conhecida mesmo como castanha-do-Pará, lá fora é que ela é a castanha-do-Brasil.

Entre bancas de castanhas, há muitas que vendem cachaças e licores de jambu e de outros frutos e coquinhos da Amazônia. Dei um mini gole de cachaça de jambu, que desceu queimando e concluí que não é pra mim, já o licor vai mais fácil, mas não compraria. Também experimentei uns outros, mas só pra experimentar e nada mais. Nas redondezas há barracas que vendem ovos, fumo, rapé, pimentas e uma ou outra coisa mais diferente.

Mandioca com força total
Aí chegou o meu paraíso, o mundo da mandioca! Como acontece pelo Brasil inteiro, e no Norte com ainda mais força pela grande presença dos povos indígenas, a mandioca é a base de tudo. Além de cozida e frita, ela dá farinhas maravilhosas, tanto fina, como bijú, como ovinha ou d’água, de textura grossa e deliciosa e que absorve líquidos de uma forma tão diferente que quem experimenta se encanta na hora, dá tapioca flocada, que vira mingau, pãozinho, bolos e doces, mas vai bem pura com açaí, dá a goma que vira bijú e deixa o tacacá com uma consistência única, e, da mandioca brava ainda são usadas as folhas moídas e fervidas para a maniçoba e o suco espremido fermentado e fervido vira tucupi. O tucupi, essencial nas cozinhas paraense e amazonense, é o ingrediente mágico do pato no tucupi, prato de festa saborosíssimo e do tacacá, a sopa fumegante vendida em cuias nos finais de tarde nas ruas de Belém e de Manaus.

As bancas de farinha são maravilhosas e com farinhas claras e amareladas, finas, grossas e crocantes, grossas e mais duras, daquelas de hidratar, secas e d’água. São sacas e mais sacas espalhadas pra escolher e pedir por litro.

Enlouqueci com tanta farinha
Foto: Ana Bacellar

As farinhas ditas de Bragança e região são sempre mais caras, pois são consideradas superiores e especiais. O Paulo explicou que as amarelas de qualidade são naturalmente amarelas, tanto pelo tipo da mandioca utilizadas, quanto pelo processo, mas que há farinhas tingidas de amarelo vivo, trambicadas. Pra saber se a farinha é boa, não há outra forma a não ser colocar um pouco na mão, jogar na boca e sentir a textura e o sabor. Comprei uns 3 litros de farinha mais comuns pra experimentar e depois comparar com as de Bragança (a ida estava marcada pra uns três dias depois).

Felicidade estampada no meu rosto de ver tudo aquilo!
Foto: Ana Bacellar

Por ali, também há muita goma de mandioca, o polvilho azedo ou doce do Sudeste e do Sul, que usavam pra fazer as tapioquinhas escandalosamente deliciosas e que os paraenses comem aos montes. Há uns vendedores que ficam ralando mandioca sem parar, deixam hidratar em tambores grandes e vão peneirando goma pra quem quiser olhar e, é óbvio, que fiquei um bom tempo observando e papeando com eles.

Uns passos pro lado e subindo uns degraus, fica a parte mais característica da cozinha paraense, o reino da maniçoba e do tucupi. O cheiro da folha da mandioca moída, que lembra capim, toma conta de tudo. Essas folhas moídas vão pro fogo e cozinham por uns 6 dias pra desintoxicar, depois são ensacadas e vendidas pra quem quer preparar um dos pratos mais diferentes e interessantes do Pará, a maniçoba. A maniçoba pronta fica escura, leva embutidos e charque e fica com sabor que lembra feijoada, só que sem feijão e com a folha moída no lugar. É bem interessante.

Olha só o tamanho desses sacos de maniçoba!
Foto: Ana Bacellar

Também ali a mandioca é moída pra extrair o tucupi e a mandioca moída é trabalhada sobre peneiras pra soltar o líquido rico em amido, que em pouco tempo sedimenta e já vira goma.

Cuias lindas, palhas e miriti
Ao lado desse mundo de maniçoba fica a parte do artesanato, com muita palha de palmeiras diferentes, cestos, paneiros, cuias e bastante coisa feita de miriti, com a leveza isopor que vem do talo central da folha da palmeira do buriti. Trouxe na mala muitas cuias, lisas e pretas e também desenhadas, umas bem miúdas, várias pequenas e médias e uma bem grande, uns paneiros e uns jogos americanos feitos de palha da palmeira do açaí e um barquinho de miriti que já está enfeitando a casa da praia.

Algumas das cuias que trouxe na mala
Foto: Ana Bacellar

Falando em artesanato, que eu sempre amei, achei coisas muito lindas, autênticas e diferentes na mini, muito pequena mesmo, lojinha do Parque e Museu Emílio Goeldi. O parque vale a visita, é lindo, tem árvores centenárias, pássaros e animais da Amazônia bem no centro da cidade.

São lindas, não?
Foto: Ana Bacellar

Secos, salgados e defumados da terra e das águas
Descendo a escadinha, só continuar pela parte cheia de mantas de charque e, em seguida, de peixes secos. As mantas enormes, umas bem altas e grossas de pirarucu seco e salgado que chamam de bacalhau da Amazônia, são valiosas pois o peixe é suculento e mega saboroso mas também há muitos outros peixes regionais secos e salgados que entram em muitas preparações e fazem bastante sucesso por lá. Há também bastante aviú, o micro camarão que eles tanto amam, a farinha piracuí, um preparado feito de peixe seco e moído com sabor bem intenso, mas gostoso. Depois dos peixes vêm os camarões de água doce e salgada também secos e salgados de todos os tamanhos.

Magia, especiarias e que tais
Aí vem a parte cheia de segredos e mistérios, com curas específicas pra todos os males, alguns deles de forma quase milagrosa, com folhas, matos e cascas frescos e secos como pós, unguentos, poções, perfumes, cheiros e defumadores. Confesso que achei lindo de olhar, com as mil garrafinhas coloridas que são pura magia e é até divertido ouvir as erveiras contarem sobre os segredos da floresta, que elas conhecem bem demais, e oferecerem os seus serviços e conselhos a quem passar perto.

Como, além dos frutos e coquinhos que alimentam, também há um tanto de produtos que, de um jeito ou de outro, fazem bem à saúde, há remédios naturais que têm muita freguesia. É o caso do fruto maná-cubiu, ou tomate de índio, que vai do amarelo ao vermelho, é ácido como limão e, cozido com água, açúcar e gengibre até se transformar numa bala e combate vários males.

É nesse pedaço do mercado que é possível comprar algumas cascas, sementes e favas boas pra usar em receitas de comer. Pra repor os meus estoques, que estavam baixos, comprei cumaru, que seria a baunilha amazônica, pixuri, que faria o papel da noz-moscada, e a perfumada e deliciosa imbiriba, que eu adoro.

Todas elas aromatizam cremes, sorvetes, bolos e molhos de jeitos muito nossos, deliciosos e intrigantes. Apesar de tudo isso, não passei muito tempo por lá, sou mais das comidas.

Ao lado, há um canto com gaiolas com patos, galinhas, coelhos e perus vivos, um comércio que por lá e pelo Brasil afora ainda acontece, mas me incomoda um tanto.

Cheiros
Vem, então, uma parte que eu simplesmente adoro, coloridíssima, perfumada, alegre e tão divertida que me dá vontade de comprar uma cesta com um pouco de tudo e de correr pra cozinha. É a vez das verduras, legumes, cheiros, frutos e frutas.

De cara, um senhor com duas peneiras, uma com ramos de jambu e a outra lotada de flores de jambu, que hoje são consideradas como iguarias, fazendo tudo tremer de uma forma concentrada. Na verdade, essa tremeção toda é a cara da cozinha paraense, faz parte de muitas receitas e é deliciosa quando usada na medida correta. Os desavisados e que na louca colocam duas ou três flores na boca acabam desesperados… Quanto às flores, é interessante ouvir a Helena contar que, quando ela era criança, as florzinhas não tinham valor, pelo contrário, os clientes reclamavam quando, por descuido, uma dela ia pro prato e, assim, na cozinha, havia quem passasse horas só tirando e descartando as flores. Os tempos mudaram!

Falando em cheiros, cada lugar do mundo tem os seus temperos básicos e no Pará há coentro comum, alfavaca, a chicória-do-Pará, que em outras regiões do Brasil aparece como coentro-caiçara ou coentrão, há jambu, ou agrião-do-Pará, e, também, muito, alho, cebola e pimentas. Esses cheiros entram na panela de receitas do dia-a-dia e também nas de festa, pois não pato no tucupi e nem tacacá sem esses gostos e perfumes. Num canto, encontrei batatinhas do capim que é nada mais, nada menos, que a priprioca que o Alex fez com que o mundo conhecesse como ingredientes de cozinhar, pois antes só se usava pra fins cosméticos ou pra curar uma ou outra coisa. Com a priprioca fresca, preparar uma essência é tarefa simples, o mesmo método que uso nas receitas das essências incríveis funciona, como se fosse gengibre. Não trouxe algumas só porque ainda ficaria mais uns dias por lá e, em seguida, iria pro Fartura de Fortaleza e, assim, levaria uns 10 dias pra voltar pra casa. Pra matar a vontade eu só trouxe na mala a geleia de priprioca da Manioca.

As pimentas miúdas, graúdas e de muitos formatos, mais e menos picantes, verdes de vários tons, e que também vão do amarelo pálido passam pelo a alaranjado e chegam ao vermelhíssimo, são escandalosamente maravilhosas e enfeitam sempre. As pimentas-de-cheiro que os paraenses amam são perfumadíssimas, como o nome diz, mas há diferenças, a verde maiorzinha e meio franzida é mais suave e a amarela, que é menor e redonda, é mais picante, mas eu adoro as duas. As barracas de pimentas frescas são sempre lindas demais, aquele colorido que é puro mundo tropical, mas as que vendem as pimentas em conserva e em vidros dos mais variados tamanhos também são irresistíveis, dá vontade de trazer vários.

Pimentas de cheiro lindinhas!
Foto: Ana Bacellar

Convivem com as pimentas em conservas as muitas garrafas pet pequenas, médias e grandes de tucupi. O Paulo logo mostrou a diferença entre os bons (o líquido dá uma separada e um tanto fica sedimentado e tem que chacoalhar pra misturar antes de usar) e os ruins, amarelíssimos e sempre homogêneos. Pra facilitar a vida, é comum encontrar aqueles saquinhos de rede com os temperos básicos em quantidades suficiente pra uma receita ou pro dia-a-dia básico, com umas duas cebolas, dois tomates, dois pimentões verdes, dois dentes de alho, algumas pimentas-de-cheiro e, às vezes, chicória-do-Pará, uma graça.

Nesse setor, tem pupunha cozida na hora, batata comum e doce, inhame, mandioca/macaxeira pra cozinhar em casa e usar como quiser, tomate, pimentão, abóboras, folhas pra salada, cenouras, jiló e tudo que se leva pra panela pra hora da mistura.

Sucos e frutas
As frutas são um outro mundo, o máximo do incrível, coloridas, cheirosas e dá vontade de comer um pouco de cada. As bananas do Norte são de causar inveja a qualquer um e há de tudo e mais um pouco, da nativa pacovã ou da terra às nem sei quantas variedades crescem com rapidez e adoçam a vida de muitos (eu já tinha visto bananas assim no mercado de Manaus, que impressiona pelas bananas, é banana que não acaba mais). Os abacaxis perfumadérrimos, melancias, mangas aos montes e das miúdas às grandes e das esfiapadas às lisas, maracujás, cajus, mamões, graviolas surgem de todos os lados.

Cupuaçus gigantes, com o aroma único e acidez deliciosa também aparecem em muitas barracas e quase todo mundo que está passeando por ali para pra olhar ou compra pelo menos um pra depois preparar bolos, tortas, doces, sorvetes, sucos e pudins. Fiquei um tempo olhando uma senhora que, com paciência e capricho daqueles, passa horas e horas tirando a polpa branca e fofa do cupuaçu com uma tesoura pra vender pura polpa, tarefa bem trabalhosa.

Adorei conhecer a D. Carmelita
Foto: Ana Bacellar

Demos uma paradinha pra tomar um suco nas barracas de polpa e, como sempre, a escolha foi difícil. Pedimos taperebá e murici pra experimentar ao menos dois e, por gulodice, ainda tomei um copinho do irresistível bacuri.

Suco divino de bacuri!
Foto: Ana Bacellar

Mas, por mais estranho que pareça, não são muitas as barracas que vendem as frutas mais regionais e consideradas exóticas fora da Amazônia. Ainda bem que o Paulo logo disse que a gente encontraria a barraca da D. Carmelita e lá poderia ver e experimentar de tudo. E foi o que aconteceu! Ele fez as apresentações e ela, super gentil, começou a falar dos frutos da floresta, que ela conhece como pouca gente. Aí começou a experimentação deliciosa, que eu amei.

Ela abriu um bacuri ultra doce e cheiroso, amarelado e pintadinho por fora e com a polpa branca e fina envolvendo o caroço. Como a quantidade de polpa por fruto é pequena e, assim, é preciso ter vários pra juntar um tanto razoável, ainda que um copo de suco, qualquer coisa preparada com ele vai custar caro.

Depois veio um abricó do Pará bem polpudo e doce, que era ótimo, mas o da estrada de Mosqueiro era ainda melhor.
Também comi mais biribá, que eu tinha amado; um buriti, que achei plasticamente lindo, mas não entendi porque tanta gente adora o doce feito com a polpa alaranjada, pois não tem muito gosto; e taperebá, que é uma delícia e viciante, difícil comer um só ou parar de comer, tem um azedinho adocicado maravilhoso.

Como castanha fresca é tudo de bom e a D. Carmelita logo abriu mais um ouriço e descascou umas castanhas fresquíssimas, daquelas escorrendo leite e a gente comeu várias.

Os cupuaçus que estavam num canto da barraca eram os mais lindos e polpudos de todos, daqueles que realmente tem quase metade do fruto em polpa. Ao lado, muitos sapotis refrescantes, uma pilha de mangaba, que eu adoro e acho o máximo, pois o nome indígena significa “fruta boa de comer”. Ela ainda tinha um tanto de murici, de uxí e de jambo, que muita gente ama, mas eu só acho bonito, não gosto muito do sabor tão de flor que ele tem.

Acho que a gente passou uma hora com a D. Carmelita! E foi tão gostoso que a gente ainda voltou ao mercado mais duas vezes pra comprar pupunha, que ela ajudou a escolher na barraca de um conhecido dela e mais bacuris vindos de Bragança. Aliás, quando uns dias depois a gente foi pra Bragança, deu pra ver a árvore enorme do bacuri e tomar mais sorvete de bacuri, creme gelado de bacuri na beira da estrada e ainda comer uma torta de bacuri demais de boa.

O fato é que essas frutas amazônicas todas são tão únicas, especiais e deliciosas que não dá pra perder qualquer chance de experimentar quando uma delas passa pela frente.

Peixes incríveis no mercado de ferro azul
Quase em frente à barraca da D.Carmelita, fica uma das porta laterais do mercado azul de peixe, com a estrutura de ferro e as torres que enfeitam o Veropa todo e simboliza o mercado. Sinceramente, entrar naquele mundo cheio de peixes foi um momento e tanto. Eu já tinha visto tanto peixe assim nas outras idas ao Pará e também no mercado de peixe de Manaus, que é impressionante, mas é sempre sensacional. O fato é que há peixes para todos os gostos, bolsos e ocasiões, mais ou menos suculentos, com mais ou menos espinhas, do mar, que não fica tão longe assim de Belém, já que a costa do Amapá e do Pará é grande, e dos rios, que são as estrelas do mercado.

Tem muito peixe de água salgada, caranguejos carnudos e camarões, que entram nas receitas tanto frescos, como secos e salgados. Aliás, esse camarões secos paraenses são tão suculentos e saborosos que deixam não só o tacacá, como outros tantos pratos, ainda melhores (nada contra os baianos, mas os do Pará são bom demais).

Filhotes

Há uma infinidade de peixes dos rios e cada um com as suas particularidades. O filhote, de carne suculenta e saborosa é sempre disputado. Na verdade, ele é se chama piraíba e é considerado o maior peixe das águas doces da Amazônia, mas consome-se o filhote com no máximo 60 kg, já que os peixes acima desse peso, que pode alcançar uns 300 kg, ficam com a carne fica rija e não tão saborosa. Há o imenso e divinamente saboroso e macio o pirarucu, considerado o rei das águas amazônicas, que chega a uns 3 m e 200 kg, tem um formato muito peculiar e, nesse canto do mercado, é vendido fresco.

O tucunaré, que é grande, meio dourado com listras escuras, com carne branca e versátil, fica deliciosas de qualquer jeito, embora eu adore o peixe assado e na brasa, mas também fica ótimo frito ou na caldeirada. O tambaqui, um peixe bem gordo, que só com sal e inteiro vai pro forno ou pra brasa e vira banquete, ou também dá as famosas costelinhas que são um petisco daqueles e ficam boas assadas e empanadas e fritas. Tem a dourada, um peixe que migra por quilômetros pelos rios amazônicos e é a preferida do belenense. Há surubim, ótimo pra grelhar e servir em postas, lindo com o couro desenhado. Além desses de rio mais conhecidos, há matrinxã, jaraqui, curimatã, jaú, pacu, piranhas, cachara, surubim, pescadas e traíras variadas e muitos outros que a gente mal consegue saber os nomes.

Esses peixes todos fazem parte da mesa do dia-a-dia tanto das populações ribeirinhas e indígenas, quanto de quem vive nas cidades. Come-se peixe inteiro, em postas ou filés, ensopado, em caldeirada, frito inteiro ou em pedaços, moqueado ou assado e acompanhado de pirão, farofa de farinha de mandioca, mandioca frita ou cozida, arroz ou creme de açaí, macarrão, salada, quer dizer, com tudo e mais um pouco.

E mais peixes…
Foto: Ana Bacellar

Mas é bom saber que, na verdade, esse movimento de peixe começa de madrugada na famosa pedra do peixe que nos fundos desse mercado azul, no porto onde chegam barcos e mais barcos vindos dos arredores. Os barcos chegam abarrotados de peixe dos rios amazônicos, são descarregados e pesados, os preços são fixados diante da oferta e da demanda e tudo é pesado, vendido e distribuído. Uma parte vai pros caminhões refrigerados que ficam estacionados ao redor do porto e levam peixes pro Pará e outros cantos do Brasil e outra vai pros restaurantes e pro mercado azul, ali ao lado, e o povo de Belém faz a festa e a gente admira.

Nesse portinho do Ver-o-Peso, tanto pelos restos dos peixes que ficaram espalhados pelo chão depois das negociações da madrugada, como do que sobrou dos tabuleiros montados pelos peixeiros que levam pra esse canto do mercado os produtos já não tão frescos, urubus e garças fazem a festa. Sinceramente, eu não fazia ideia de que as garças esguias e cheias de pompa no andar viviam exatamente como os urubus. A situação é tão única e inusitada que todo mundo comenta e qualquer belenense cantarola o carimbó da D. Onete que fala da garça namoradeira e do urubu malandro. Ah, outra coisa que todos recomendam: o pitiú, que é o cheiro de peixe que vai impregnando em tudo, só sai mesmo com limão.

Barquinhos vão e vem por aqui
Foto: Ana Bacellar

O mercado de carne mais lindo do mundo
Pense numa construção linda de morrer, maravilhosa é a melhor palavra. Assim é o antigo mercado, que começou de madeira ainda no XIX, mas foi reformando no começo do XX com estrutura, escada, colunas e enfeites todos em ferro vindos da Inglaterra e dos Estados Unidos, hoje todo pintado de verde escuro. Como foi restaurado há não muitos anos e, pra longa reforma, precisou ser esvaziado e os vendedores antigos se mudaram dali, muitos não voltaram e há vários espaços vazios. O prédio, que por fora é amarelo bem clarinho e muito bonito, pode receber eventos e deve funcionar meio que como um centro cultural.

Arquitetura cheia de detalhes do mercado
Foto: Ana Bacellar

Os açougues ficam com as carnes penduradas em ganchos e cortam na hora o pedaço que o freguês quiser sobre a bancada, como era antigamente, só é meio estranho pra quem é do Sudeste e do Sul e está acostumado a ver tudo acomodado em balcões refrigerados.

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