Belém é o máximo – Parte 1

Feito com:
Ana Bacellar

Em novembro de 2018, passei uma semana em Belém com a Ana, minha filha mais nova, na casa da Joanna Martins que, com a família dela toda, e o Paulo Reis, também da Manioca Brasil, receberam a gente com carinho incrível, levando pra mil lugares e mostrando delícias de dar inveja a qualquer pessoa.

Com certeza, há quem pense que uma semana é muito, mas eu precisaria de uns bons outros dias pra dar conta de conhecer, experimentar e comer pelo menos uma parte do que eu queria. E olhe que eu não sosseguei um minuto e comi sem parar, de pouquinho em pouquinho, do momento em que pisei na cidade das mangueiras e até a hora de embarcar.

Na verdade, essa foi a minha terceira ida ao Pará, mas fazia muito tempo que eu pra lá. Em 1974, quando eu tinha 11 anos, meu pai, que adorava colocar a família toda no carro e sair pelo Brasil afora, muitas vezes a caminho da Paraíba pra passar as férias de verão na casa dos avós dele em João Pessoa, resolveu fazer um trajeto um tanto alternativo e maluco, dando “uma passadinha” em Belém com a desculpa de conhecer a Belém-Brasília. A viagem foi linda e nunca me esqueci da chegada a Belém num fim de tarde, parando de cara numa barraca pra tomar tacacá. O sabor e a textura daquele caldo amarelado mesclado ao mingau esbranquiçado com os camarões secos e as folhas estranhas e que causavam um leve tremor na boca diferentes de qualquer coisa que eu já tivesse experimentado na vida. Minha mãe ficou tão impressionada com a minha reação que me deu de presente uma cuia – também chamada tacacá – e que guardei por muitos anos, até rachar e desaparecer numa mudança. Também amei o suco de cupuaçu, o pirarucu de casaca, a farofa crocantíssima e achei divertido observar as bandeirolas vermelhas informando que havia açaí pra vender.

Que viagem mais deliciosa! Boas lembranças de Belém!

Uns 12 anos depois, em 1986, voltei pra Amazônia de lua-de-mel, o passeio também começou pelo tacacá em Belém. Foram dias deliciosos, o Carlos e eu comemos frutas e peixes aos montes e almoçamos duas vezes no “Lá em casa”, quisemos repetir as arroz de jambu, doses da farofa de pirarucu e da salada de feijão manteiguinha.

O restaurante, naquele tempo, ficava no casarão lindo com janelões e alpendre dando pra Avenida Governador José Malcher. Eu me diverti no antigo Ver-o-Peso, que era bem diferente, mas incrível, com uns trezentos e tantos anos de história pra contar. Num tempo em que pouca gente do restante do Brasil conhecia ao menos tiquinho sobre o Norte, cansaram de me perguntar o que a gente foi fazer no Pará.

Muito amor pelo Pará
Ainda bem que, com o passar dos anos, a dedicação, o capricho e o carinho que a D. Anna Maria Martins e o filho Paulo Martins demonstraram pelos ingredientes, receitas e saberes da cozinha paraense deram frutos e essa gastronomia tão intensa, rica e diferente despertou pro restante do Brasil e pro mundo. O encantamento do Paulo pela cozinha paraense transbordava, ele usava os ingredientes locais em pratos deliciosos, falava da Amazônia, dos produtos, das receitas e dos modos de fazer e de comer com tanta paixão que bastava ouvir suas histórias ou comer a sua comida pra ser fisgado de vez pelo Pará e por tudo de gostoso que a Amazônia oferece. Foi assim que Belém entrou na rota dos lugares imperdíveis pra quem ama comida e cultura.

O Ver-o-Peso foi reformado e valorizado, veio a estação das Docas, chefs importantes do Brasil e do mundo ficaram maravilhados com a culinária paraense e passaram a usar ingredientes de lá em receitas incríveis e chefs locais despontaram com novos restaurantes, usando com perfeição tudo de sensacional que a região tem.

Paulo Martins se foi cedo, mas Tania, Joanna, Dani e Helena continuaram firmes com o propósito de preservar e promover tudo que o Pará e o Norte têm de bom. O “Lá em casa” continuou delicioso, com Tania segurando as rédeas e a Dani preparando pratos apetitosos e inventando moda todos os dias, o Instituto Paulo Martins assumiu pesquisas, estudos, trabalhos de preservação e divulgação da cultura gastronômica local e Joanna com Paulo Reis criaram a Manioca Brasil, uma empresa deliciosamente querida que, junto com produtores de farinha, tucupi, feijão, pimenta, frutos e frutas regionais, seleciona, processa, prepara, embala e vende pro Brasil e pra fora uma linha de produtos únicos, muito especiais e de super qualidade.

A gente visitou a Manioca numa tarde e foi muito bom. Deu pra ver e experimentar as geleias que eles produzem com muito cuidado e seriedade e o fato é que amei todas elas. Todas vão bem com um bom pão, mas cada uma tem as suas particularidade: a de priprioca é demais de boa e perfeita com carnes vermelhas e aves, petiscos e queijos; a de jambu dá o tremorzinho intrigante e fica ótima com petiscos, queijos, aves e crustáceos; a de taperebá vai bem com queijos e grelhados; a de açaí ficou divina com queijos, aves e carnes vermelhas e a de pimenta-de-cheiro é demais de saborosa e perfumada, ficou incrível com camarões e lulas fritos ou grelhados, queijos, carnes vermelhas e salgadinhos).

Gostinho do Pará em potinhos.
Foto: Ana Bacellar

O doce de cupuaçu é delicioso, doce na medida certa e vai bem com o bolo de cupuaçu e com sorvete de creme, de nata ou com o carimbó. Depois o setor em que embalam as farinhas de Bragança e de tapioca, assim como o feijão manteiguinha de Santarém, o tucupi, o jambu e a chicória-do-Pará, esse últimos três vendidos congelados, e as caixas com o molho sensacional de tucupi preto, uma forma antiga de preparar o tucupi, que estava praticamente sumida e a Joanna, com muita persistência, recuperou e está conseguindo mostrar pro mundo que é bom demais. Deu até pra tomar um golinho de licor especial de jambu, que é feito pra eles apenas pra degustações, e foi o melhor que tomei durante toda a semana que passei em Belém.

Como, na vida, nem tudo anda como a gente imagina, mesmo com tanta coisa boa acontecendo no Pará e com o meu gosto antigo por tudo o que é de lá, o tempo foi passando e não consegui voltar, até que, agora em novembro tudo se ajeitou e pude voltar.

Logo na chegada
Cheguei com a Ana no final da manhã, o Paulo pegou a gente no aeroporto e bora deixar as malas na casa da Joanna. Pelo caminho, ele passou pela praça Batista Campos, pela Basílica de Nazaré e ruas cheias de casarões maravilhosos e mangueiras centenárias imensas pelas ruas (e a secretaria ambiental diz que são mais de 10 mil mangueiras pela cidade). Essas mangueiras, que formam túneis lindos e dão ares de floresta à cidades e trazem muitos pássaros, estavam carregadas de cachos enormes de mangas já bem grandes, mas ainda verdes e o Paulo contou que, no tempo certo, os apanhadores recolhem essa manga toda e vendem nas esquinas do centro e disse que a coisa mais normal do mundo é pegar uma manga do chão e levar pra casa. Não comi essa manga catada no meio da chuva da tarde, como ouvi dizer que é sentir Belém na alma, mas dizem que a experiência é única e que as mangas são bem doces e saborosas, quem sabe um dia realizo esse sonho guloso.

Os casarões são pra lá de deslumbrantes, pena que a quantidade de restaurados ainda é pequena. Fiquei só imaginando a cidade toda restaurada, colorida com as mangueiras enfeitando ainda mais as fachadas, pura maravilha.

Num dos primeiros dias da viagem, seguindo os conselhos da Joanna e do Paulo, Ana e eu pegamos um barco pra ver o por do sol na baía do Guajará e valeu a pena, tanto pelo sol despencando na água, quanto pela vista que se tem da cidade. Também fomos conhecer o Teatro da Paz, que é lindo e riquíssimo e o Museu de Arte Sacra. Tinha bem mais coisa pra ver, mas não deu tempo mesmo.

Lindo pôr-do-sol na Baía do Guajará

Água é o que não falta, pra qualquer canto que se olhe tem água, com aqueles rios tão largos que mal se vê a margem do outro lado e, pra sentir a cidade com toda a sua energia, nada como olhar a Baía do Guajará, formada com o encontro da foz do Acará e da foz do Guamá, aos rios Amazonas e Maguari. Tudo fica ainda mais lindo num fim de tarde de céu limpo pra ver o por do sol, tanto das cadeiras da Estação das Docas como do barco.

A cidade é demais e, com tanta água e a floresta ao redor, a umidade altíssima faz a gente se sentir meio peixe e ficar sempre breado, ou melado de suor, meio desconfortável, mas o restante é tão bom que o calor passa pra segundo plano.

Belém é demais!!! Amei e quero voltar o quanto antes. Tem de tudo e mais um pouco, consegue mesclar simplicidade e requinte com ares exóticos e muito próprios. Vale muito ter um tiquinho de atrevimento e mergulhar num universo tão rico, colorido, saboroso e perfumado, com uma comida que comida consegue ser simples, requintada, exótica ao mesmo tempo.

No “Lá em casa”
O primeiro almoço, como não poderia deixar de ser, foi no “Lá em Casa”. Comi um filhote delicioso com molho de castanhas, o clássico da casa arroz no tucupi e jambu, uma farofinha sensacional e ainda experimentei o queijo marajoara derretido e saboroso do prato da Ana. O queijo vem das manadas imensas da ilha de Marajó que, além da carne, dão queijo e manteiga incríveis. Pedi a sugestão do Paulo na hora de escolher o suco e fiquei com bacuri, que é mesmo tudo de bom e mais um pouco!! Senti um perfume que lembra o das amêndoas, mas com as suas peculiaridades, o sabor é muito próprio, tem gosto de bacuri e pronto, com um azedinho perfeito mesclado à doçura intensa. Sobremesa? Eu comi suspirando cada colherada da castanhada perfeita que a Dani faz, só imaginar uma cocada sem coco e sim de com castanhas-do-Pará fresquíssimas, luxo que só quem é vizinho da floresta pode ter.

Como dizem eles, o Lá em Casa é um patrimônio da cultura gastronômica paraense.
Foto: fornecida pela equipe do Lá de Casa

Já em São Paulo, inspirada nas receitas da Dani, fiz o arroz no tucupi com jambu e chicória-do-Pará e, uma farofa paraense com feijão manteiguinha e coentro e a castanhada com canela, uma versão pra quem ama castanhas, mas vive longe das castanheiras paraenses, e com o perfume de canela que eu gosto demais.

Ainda jantamos num outro dia no Lá em Casa, um banquete dedicado ao pato pra vários convidados. Dois chefs convidado preparando dois pratos com pato e a Dani com o mega clássico e delicioso pato no tucupi. Ana e eu estávamos bem cansadas nessa noite, tínhamos acabado de chegar de um longo dia em Bragança, mas valeu comer tanto pato bom, ver a baía do Guajará iluminada e tomar mais um suco refrescante, saboroso e perfumado de cupuaçu.

São José Liberto
Também fomos visitar o Espaço São José Liberto, a antiga cadeia, com a capela linda com paredes de pedra logo na entrada, com as celas antigas de dar arrepios, mas tudo bonito demais depois de restaurado. No pátio das celas hoje há joalherias com pedras da Amazônia e, no salão enorme dos fundos, ficam o café e os espaços com objetos de arte popular e outras coisas do Pará. Como o calor era grande, o Paulo comprou um guaraná Garoto bem gelado, que tomei e amei, cada gole me trazendo aquele gostinho de antigamente que é o máximo.

Minha mais nova paixão: Guaraná Garoto.
Foto: Ana Bacellar

Vi peças lindas de cerâmica marajoara e cestas perfeitas, mas eu me deliciei mesmo no canto das guloseimas do Pará. Comprei acho que uns dez tabletes de chocolates paraenses feitos com cacau nativo da Amazônia e produzidos por comunidades locais, pois queria experimentar tudo, e também peguei uma meia dúzia de saquinhos de biscoitos amanteigados de castanha, uns simples, uns recheados com cupuaçu e os com chocolate, que chamam de beijo de dama.

Linda Capela São José, do Espaço São José Liberto. Imagem: Ascom/IGAMA

Comer muitos pedaços de chocolate De Mendes, com diferentes variedades e intensidades de cacau, foi sonho, amei os ao leite, só que com leite de búfala, e gostei demais dos 63% e 68% e pena que não tive tempo de visitar a comunidade que prepara isso tudo. Também gostei do Nayah com castanha-do-Pará.

Unhas de caranguejo
No começo da noite, o destino foi o “Sabor especial”, um mix de restaurante com boteco muito simples e escondido numa travessa de Umarizal pra comer unha de caranguejo. Estava sonhando com a tal da unha, providenciada com o maior carinho pela Tania, e ela ficou no lista das melhores coisas que comi em Belém.

No “Sabor Especial”, sexta é dia de unha, só que naquela semana a sexta seria feriado, então foram feitas na quinta, mas sempre no mesmo esquema: como a procura é grande, é preciso ligar cedo, reservar uma quantidade, no horário combinado ir até lá, consumir o que quiser na hora e levar pra casa o restante da encomenda (a Tania sempre pede um tanto a mais).

Sonhei tanto com essas unhas de caranguejo! Foto: Ana Bacellar

Voltei pra São Paulo sonhando com unhas de caranguejo, experimentei algumas receitas, dei as minhas mexidinhas e cheguei à unha de caranguejo do meu jeito que servi com as geleias de pimenta-de-cheiro e de taperebá da Manioca (explico tim-tim-por-tim-tim no texto da unha).

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